sexta-feira, 15 de março de 2013

Larguei as Drogas


Sim, e elas se chamam hidróxido de sódio, progressiva, escova e chapinha.
Sei que muitos, em especial as mulheres, torceram o bico agora. Ah! Isso não é droga! E quem disse que não?
Elas causam vícios terríveis: você olha no espelho e procura aqueles dois dedos de raiz que cresceram e já se desespera para marcar um horário no salão, para alisar e fazer uma progressiva.  Não sai de casa se não escovar o cabelo ou passar a prancha.  Foge de tudo que é garoa, neblina, vento e outros fenômenos da natureza, que podem acabar com o sonho da Cinderela e fazê-la voltar pra casa numa abóbora gigante.
É a coisa é mesmo séria, meus leitores (nossa, já tenho alguns, rsrsrsrs).
Fui condicionada desde criança a alisar meus cabelos porque ele era “ruim”. Minha mãe sofria para cuidar do seu cabelo e de mais quatro filhas crespas em fase escolar que viviam com piolhos.  Reclamava toda vez que tinha que lavar nosso cabelo com aquele pente fininho e xampus próprios, que os deixavam ainda mais ressecados e “duros” como ela dizia. Levava-nos numa escola de cabeleireiros para cortar, porque era mais barato e ela podia pagar. Mandava cortar os das cinco (inclusive o dela) “Joãozinho”, assim resolvia o problema do piolho e do tempo que perdia penteando, trançando ou amarrando a nossa “juba”.
Não a culpo, tenho dois filhos e quase enlouqueço para dar conta de tudo.
Com dez anos de idade recebi a visita ilustre da minha tia que mora na Bahia, terra das crespas, rsrs, e veio com todas as dicas de como minha mãe acabaria com o problema dos cortes masculinos e dos piolhos nas filhas: creme de alisar Wellin, à base de amônia. Ele tinha um cheiro horrível e por isso não saíamos de casa com o cabelo molhado, além disso, nossa tia nos ensinou a enrolar bobs no próprio cabelo (naquele tempo não se usava escovas e pranchas). Assim nós mesmas aprendemos a cuidar do cabelo umas das outras.
Gente foi a nossa “libertação”, cabelos que se mexiam ao vento.  Piadas de “Jackson Five”, “cabelo de bandeja”, “cabelo de Bombril” acabariam na escola.  Será que agora os meninos nos olhariam? Será que agora andaríamos de cabeça erguida, não nos envergonhando de quem éramos? Essas eram nossas expectativas.
E durante 25 anos da minha vida nunca mais larguei a tal química, ela apenas mudou de nome, hidróxido, progressiva, escovas e chapinhas.
Cansava o tal padrão de beleza, horas a fio no secador, derretendo de calor, e com o passar dos anos me cabelo foi ficando cada vez mais quebradiço, mais ressecado, quedas, queimadura das químicas, gastos exorbitantes no salão. Cheguei até a fazer um curso de cabeleireira, trabalhei com meu próprio salão por sete anos e ainda faço algumas coisas, quando dá tempo entre lecionar e estudar, e nunca vi uma crespa ou cacheada assumindo suas raízes.
Uma vez cheguei a perguntar ao meu marido, o que ele achava se eu parasse de alisar meu cabelo. Ele me disse: gosto de cabelos lisos, compridos e pretos.  Eu respondi: Ah! Desculpa, mas essa é sua ex-namorada, kkkkkkkkkkkk.
Hoje passados 13 anos, dou risada, mas já chorei muito por isso. Uma ditadura que diz que toda mulher deve ter cabelo liso, ser magra, sem celulites, inteligente, obediente, ahrhrhrhr.

BASTA!  Primeiramente decidi parar com as escovas e não com o alisamento. Fui pesquisar na internet os riscos que uma química pode causar a nossa saúde e conheci centenas de meninas que passaram ou estão passando pelo mesmo processo que eu. Conheci blogs, páginas de cacheadas e crespas no Facebook, grupos de libertação da química, tutoriais de como cuidar e amar o cabelo que Deus me deu.  Descobri que é possível me livrar dela, vi testemunhos de mulheres que venceram o preconceito da sociedade, de sua família e seu próprio. Já ouvi piadinhas, sim. Minhas irmãs, quando fui alertá-las dos riscos, disseram-me : “Pare! Nem quero saber, porque jamais largarei o vício”. O marido torceu o nariz, mas não se atreveu a questionar, não dei a ele oportunidade, disse: decidi assumir quem sou e ponto.
Recebi também apoio de muita gente, muitos elogios, comprei acessórios, faço hidratações caseiras e com ótimos resultados. Estou me amando. Posso sair na chuva, posso mexer em meus cabelos, posso abusar de penteados, posso ser livre!
Estou em transição. Como muitos viciados em drogas, sei que terei crises de abstinência, mas os testemunhos das meninas no grupo me ajudam e minha força de vontade e meu desejo de ser livre permanecem.
Esta sou eu, esta é a MINHA IDENTIDADE.
Nada na vida é melhor do que assumirmos quem somos de verdade.
Por Crisllei Dias




5 comentários:

  1. Gostei muito de seu artigo.Eu relaxo o cabelo, ainda não pirei, não faço progressiva, apenas relaxo, as vezes faço uma escova, mas nunca fui daquelas que corria das chuvas, logo os cabelos nunca estavam alinhados, isso nao era de grande importância para mim, mês passado relaxei,nao coloco bob ou faço escova, mas lavo, passo creme de pentear,vou apertando, eles dao uns cachos e os deixo assim, eu estou gostando.Na verdade o mais importante é o que nos deixa felizes,
    Mas nosso cabelo não é ruim, como fomos obrigadas a acreditar,eles são crespos e daí.Parabens pelo blog.

    ResponderExcluir
  2. Obrigada Fátima, é importante que nosso cabelo, como nossa profissão, nossas escolhas, sejam realmente nossas, não de uma sociedade que nos condiciona a isso, sei que a intenção da minha mãe foi apenas ajudar, ela também teve e tem em mente que cabelo "bom" é cabelo liso, porque a fizeram acreditar nisso. Bjo

    ResponderExcluir
  3. Parabéns por este maravilhoso texto,conheci seu blog no grupo cabelos crespos da transição a libertação.Fiz a transição a um ano e fiz o grande corte (Big Chop) a quase um mês. Passei por muitas dificuldades na transição, mas tinha traçado uma meta,sabia o que queria. Não sabia o que aconteceria quando cortasse e o resultado foi excelente.

    Abraços.

    ResponderExcluir
  4. Elaine conheci seu blog no grupo cresp. na transição.

    Juntava as moedas tbm p/ comprar Weliin.

    Temos q ter coragem somente agora com 35 anos estou começando a saber c/ é meu cabelos estou em transição tbm.
    Bjs

    ResponderExcluir
  5. Boa sorte Fernanda, pra nós duas!!! Sou professora e tenho visto como quase 90% das minhas alunas alisam os cabelos, tenho indicado o grupos e as páginas que curto pra elas. Quando as vejo com cabelos ressecados, quebrados e nada maleáveis, penso como o meu também era e não me dava conta. Bjo

    ResponderExcluir