sábado, 30 de março de 2013

Livre


Sim, eu tenho uma amiga linda, doce e forte. E ela tem descendência negra. E tem um cabelo lindo.

Mas houve um tempo em que ela não achava isso, não achava que seu cabelo era lindo. Ela o alisava, apesar das minhas várias tentativas de fazê-la ver que seu cabelo era lindo. Hoje ela está na transição. Está se assumindo como uma pessoa que tem o cabelo crespo e que esse cabelo é tão ou mais bonito que o alisado.



E isso tem sido muito interessante para mim. Assim como ela, eu não me aceitava porque eu não me via como eu realmente sou. Eu seguia aquilo que os outros falavam. Assim como ela, eu tentava me conformar ao modelo que as pessoas me impunham.

Não, eu não tenho cabelo crespo, mas tinha muito medo de não ser o que esperavam de mim. Eu tinha que atender a todas as expectativas da minha família e eu nunca conseguia alcançar o nível que eu mesma me colocava.
Eu não me adaptava aquele modelo. Não me adaptava e me sentia muito mal. Por dentro eu via as coisas diferentes, eu achava que a gente poderia ser diferente, fazer as coisas diferentes. Mas eu era sufocada e não conseguia me expressar.

 Eu achava que a família deveria vir sempre em primeiro lugar, mas não era assim que as coisas funcionavam. Então, eu era revoltada e a maneira como eu expressava minha revolta era ser dura para comigo mesma e para com os outros.
Foi um período muito difícil para mim. Eu vivi um Vietnã, com todos os destroços e coisas feias que a guerra traz.
Minha cabeça não conseguia enxergar as coisas de outra maneira. 

Um dia eu fui forçada a me mudar. Mudar mesmo: de casa, de cidade, de trabalho, de tudo. 
E estando longe, minha cabeça começou a vislumbrar uma outra maneira de ver o mundo. Conhecendo outra cultura, outro modo de vida, eu vi que o mundo é muito mais do que aquilo que nos cerca.
As possibilidades são muito mais amplas e por vezes, muito melhores.

Aprender é difícil, muito difícil, mas o que torna tudo mais difícil somos nós mesmos, com a dureza da nossa alma, nossa teimosia em querer fazer as coisas sempre do mesmo modo, em querer impor nossa forma de pensar ou em aceitar aquilo que nos faz mal.

Como minha doce amiga, eu estou em transição. Na vida, na alma, no meu querer. Estou pacificando meu coração, aceitando que eu posso ser eu mesma, com minhas ideias, sentimentos, gostos. Aceitando que posso ter minha própria opinião e não preciso nem aceitar a dos outros, nem tentar impor a minha.

Se alguma coisa não me agrada, eu posso simplesmente me afastar dela, seja o que for. Posso simplesmente colocar um milhão de kms de distancia e ficar em paz. Eu não preciso forçar a minha natureza com nenhum alisante, produto químico ou sentimentos contraditórios...
Se meus sentimentos, meus gostos, minhas opiniões não são aquilo que as pessoas, a sociedade espera de mim, amém. Eu vou ser feliz de outra maneira.

Eu não preciso me conformar a nenhum modelo estabelecido. Eu não preciso ter o cabelo liso, a pele de pêssego, a bunda firme, os seios de silicone, não preciso passar 500hs na academia, não preciso frequentar os lugares da moda, as baladas da moda, não preciso usar a roupa de grife. Eu não preciso ler o que todo mundo está lendo. Eu não preciso sentir o que todo mundo está sentindo.
Eu só preciso ser eu mesma. Eu tenho o direito de pensar o que eu quiser. Eu tenho de direito de ler o que eu quiser. Eu tenho o direito de sentir o que eu quiser. Eu tenho o direito de ter o meu cabelo do jeito que eu quiser.
É só isso.

E preciso aprender a aceitar as pessoas como elas são
Se elas não me amam, se elas me ferem (sim elas podem fazer e isso e frequentemente fazem) eu posso simplesmente me afastar delas, sejam elas da família ou não. 

Que sejam felizes, não desejo mal a ninguém. 
Só não dá pra andar junto, só isso. Nossos pensamentos não combinam, nossa vida não combina, nosso sentimento não combina e tudo bem. Cada um seja feliz no seu canto.

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