Sim, eu tenho uma amiga linda, doce e forte. E ela
tem descendência negra. E tem um cabelo lindo.
Mas houve um tempo em que ela
não achava isso, não achava que seu cabelo era lindo. Ela o alisava,
apesar das minhas várias tentativas de fazê-la ver que seu cabelo era lindo.
Hoje ela está na transição. Está se assumindo como uma pessoa que tem o cabelo
crespo e que esse cabelo é tão ou mais bonito que o alisado.
E isso tem sido muito
interessante para mim. Assim como ela, eu não me aceitava porque eu não me via
como eu realmente sou. Eu seguia aquilo que os outros falavam. Assim como ela,
eu tentava me conformar ao modelo que as pessoas me impunham.
Não, eu não tenho cabelo crespo,
mas tinha muito medo de não ser o que esperavam de mim. Eu tinha que atender a
todas as expectativas da minha família e eu nunca conseguia alcançar o nível
que eu mesma me colocava.
Eu não me adaptava aquele
modelo. Não me adaptava e me sentia muito mal. Por dentro eu via as coisas
diferentes, eu achava que a gente poderia ser diferente, fazer as coisas
diferentes. Mas eu era sufocada e não conseguia me expressar.
Eu achava que a família
deveria vir sempre em primeiro lugar, mas não era assim que as coisas
funcionavam. Então, eu era revoltada e a maneira como eu expressava minha
revolta era ser dura para comigo mesma e para com os outros.
Foi um período muito difícil
para mim. Eu vivi um Vietnã, com todos os destroços e coisas feias que a guerra
traz.
Minha cabeça não conseguia
enxergar as coisas de outra maneira.
Um dia eu fui forçada a me
mudar. Mudar mesmo: de casa, de cidade, de trabalho, de tudo.
E estando longe, minha cabeça
começou a vislumbrar uma outra maneira de ver o mundo. Conhecendo outra
cultura, outro modo de vida, eu vi que o mundo é muito mais do que aquilo que
nos cerca.
As possibilidades são muito mais
amplas e por vezes, muito melhores.
Aprender é difícil, muito difícil,
mas o que torna tudo mais difícil somos nós mesmos, com a dureza da nossa alma,
nossa teimosia em querer fazer as coisas sempre do mesmo modo, em querer impor
nossa forma de pensar ou em aceitar aquilo que nos faz mal.
Como minha doce amiga, eu estou
em transição. Na vida, na alma, no meu querer. Estou pacificando meu coração,
aceitando que eu posso ser eu mesma, com minhas ideias, sentimentos, gostos.
Aceitando que posso ter minha própria opinião e não preciso nem aceitar a dos
outros, nem tentar impor a minha.
Se alguma coisa não me agrada,
eu posso simplesmente me afastar dela, seja o que for. Posso simplesmente
colocar um milhão de kms de distancia e ficar em paz. Eu não preciso forçar a
minha natureza com nenhum alisante, produto químico ou sentimentos
contraditórios...
Se meus sentimentos, meus
gostos, minhas opiniões não são aquilo que as pessoas, a sociedade espera de
mim, amém. Eu vou ser feliz de outra maneira.
Eu não preciso me conformar a
nenhum modelo estabelecido. Eu não preciso ter o cabelo liso, a pele de
pêssego, a bunda firme, os seios de silicone, não preciso passar 500hs na
academia, não preciso frequentar os lugares da moda, as baladas da moda, não
preciso usar a roupa de grife. Eu não preciso ler o que todo mundo está lendo.
Eu não preciso sentir o que todo mundo está sentindo.
Eu só preciso ser eu mesma. Eu
tenho o direito de pensar o que eu quiser. Eu tenho de direito de ler o que eu
quiser. Eu tenho o direito de sentir o que eu quiser. Eu tenho o direito de ter
o meu cabelo do jeito que eu quiser.
É só isso.
E preciso aprender a aceitar as
pessoas como elas são
Se elas não me amam, se elas me
ferem (sim elas podem fazer e isso e frequentemente fazem) eu posso
simplesmente me afastar delas, sejam elas da família ou não.
Que sejam felizes, não desejo
mal a ninguém.
Só não dá pra andar junto, só isso. Nossos pensamentos não
combinam, nossa vida não combina, nosso sentimento não combina e tudo bem. Cada
um seja feliz no seu canto.



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