sexta-feira, 28 de junho de 2013

O medo do outro lado da linha

A gente nunca acredita que acontecerá com a gente até que acontece. A gente nunca imagina que irá cair no golpe, depois de assistir no jornal tantas pessoas que caíram, mas cai.
Uma e meia da madrugada de quarta-feira, do dia 26 de junho de 2013, um dia tumultuado. Eu estava cansada e decepcionada com algumas coisas do trabalho. O telefone toca, uma chamada a cobrar, pensei em não atender, mas ao 3º toque atendi. Pensei: vou ouvir a voz e se não reconhecer, desligo imediatamente, mas “reconheci”; a voz feminina do outro lado parecia ser a da minha irmã que chorava, dizendo que havia acontecido algo horrível e que acabara de ser assaltada. Com o aperto no meu peito e involuntariamente, chamei por seu nome e ela confirmou. Perguntei onde estava e ela disse que no carro e chorando muito dizia que o assaltante queria falar comigo.
Quase que meu coração saiu pela boca ao ouvir ele me dizer que não queria machucá-la, mas que se eu não colaborasse, ele a mataria.
Foram pelo menos dez minutos de total desespero, entre ameaças, cobranças de dinheiro e palavras de baixo calão, as quais ele usava para me xingar. Desesperada sem saber se era um trote como daqueles que vemos na TV ou realidade, quais também assistimos pela TV, fiquei dividida, acordei meu marido e pedi, sem que o bandido percebesse, para que ele ligasse para minha irmã, atordoado também pela hora e pelo meu desespero, não conseguia contato com ela.
O medo e o terror me dominavam a cada tentativa de contato frustrado, e só depois de muito insistir com o homem do outro lado da linha, ele me deixou falar com a minha suposta irmã, respirei fundo e tentei prestar atenção a sua voz.
Não, quase certo, não era ela. Ao falar novamente com o criminoso, eu disse a ele: não, esta não é minha irmã. Ele se  revoltou e ameaçou  matar toda minha família. Paralisei, não falava, só o ouvia. Ele disse: já que não responde, vou estourar a cabeça dela. E então desligou o telefone.
Consegui com dificuldade ligar para minha irmã que demorou a atender, porque graças a Deus estava dormindo. E ao ouvi-la cai em soluços, em choque, com um  sentimento de alivio e medo.
Refém, parecia que era eu a ter a arma apontada na minha cabeça. Sentimento de medo, de raiva, de impunidade, de fraqueza, era tantos os pensamentos. Enquanto o ouvia, um filme de lembranças da minha irmã passava pela minha cabeça.
Depois de tudo terminado, foi difícil dormir. Eu o ouvia. Queria poder ir até ele e matá-lo da mesma maneira que ele ameaçou matar minha irmã, cortando devagar  cada um de seus membros.


Fiz um boletim de ocorrência pela internet que foi negado. Conversei com um policial que me disse que ele provavelmente ligou do presídio e que a voz feminina deveria ser de um travesti.
Então é um trote e para trotes não se pode fazer nada. Como um presidiário pode continuar cometendo crimes e a policia saber disso e  nada fazer?
Quando vejo ONGs que defendem criminosos, policiais punidos por matar estes, vejo valores trocados. Estamos vulneráveis, mesmo dentro da nossa casa com portas fechadas, nas ruas não se pode andar, aos bancos não se pode ir, nos sentimos cercados, violados, ameaçados. Quando isso terá fim, se terá? Quando veremos na TV a impunidade ser coisa do passado? Nunca pensei em pena de morte, mas queria para esses que me ligaram na madrugada. Agora quero para todos, todos que ameaçam, que roubam, que matam, que estupram. Não há crime menor ou maior, há criminosos capazes de só com sua voz matar uma pessoa do coração. Se o sistema não é capaz de mantê-los longe de nossas vidas, mesmo estando presos, que garantia temos nós?  É fácil quando se diz, desligue e não atenda, pensei que fosse fácil, pensei que seria capaz de dominar minha emoção, mas não foi, foi triste, tenebroso, assustador.
Deixo meu relato de desabafo, de alerta, de indignação.
Sou cidadã que exige do Governo, do Sistema, providências, segurança e punição.
Crisllei Dias.




quarta-feira, 1 de maio de 2013

Eu comigo mesma

Por hoje, eu só queria ficar comigo mesma.

Por hoje, eu só queria sair, andar pelas ruas de um lugar que nunca vi antes, mas que não me perdesse para poder achar o caminho de volta à rotina.
Por hoje, queria uma roupa confortável e leve, um sapato baixinho, deixar meu cabelo solto ao vento, talvez uma flor do lado pra exaltar ainda mais sua beleza crespa.
Por hoje, queria sentir o vento tocar em meu rosto, ouvir minhas músicas prediletas num fone, parar numa praça e me sentar para ver as crianças se divertindo sem pressa e achar graça.
Por hoje, queria parar numa lanchonete com mesas nas calçadas e experimentar um café com pão de queijo. 

Queria me demorar ali lendo um livro.
Por hoje, queria não ser interrompida nos meus pensamentos e devaneios. Queria este momento comigo mesma, só eu e eu mesma
Por hoje, queria viver um dia especial pra mim, sem cobranças, sem pressa para hora do trabalho, hora do almoço das crianças, horas de por a roupa na máquina, hora de estudar, hora disso e hora daquilo. Meus dias tem sido assim, cronometrados, para não me perder no meio do caminho e acumular afazeres, e ainda assim quando olho pra traz, percebo que deixei muitas coisas no meio do caminho.
Queria por hoje esquecer todos esses compromissos, dívidas, frustrações, compromissos, tudo e simplesmente relaxar, curtir cada minuto e cada paisagem, curtir a minha companhia que é tão agradável e é uma pena que não tenho estado com ela, sinto saudades.
Será que ainda seria possível me concentrar só em mim mesma, ou antes, precisaria de umas aulas de concentração para aprender a focar num único ponto. Tantas coisas na minha cabeça ao mesmo tempo que já nem sei.
Ahhhh não acredito aqui eu novamente querendo arrumar mais um compromisso. Parece que a gente se habitua tanto com isso que não nos damos o direito de relaxar, até prazeres como ler um livro, escrever, nadar, correr, o que começa como hobby acaba se tornando obrigação. Que raiva tenho disso.
Mas por hoje não, hoje não quero nada, só me sentir, me curtir, sem pressa, sem cobrança e sem lembranças, sem horários, só eu comigo mesma.
SÓ ISSO.

Crisllei Dias.


domingo, 28 de abril de 2013

Musicas que falam com a gente 1



É pena que você pense
Que eu sou seu escravo
Dizendo que eu sou seu marido
E não posso partir
Como as pedras imóveis na praia
Eu fico ao seu lado sem saber
Dos amores que a vida me trouxe
E eu não pude viver
Eu perdi o meu medo
O meu medo, o meu medo da chuva
Pois a chuva voltando
Pra terra traz coisas do ar
Aprendi o segredo, o segredo
O segredo da vida
Vendo as pedras que choram sozinhas
No mesmo lugar
Eu não posso entender
Tanta gente aceitando a mentira
De que os sonhos desfazem aquilo
Que o padre falou
Porque quando eu jurei meu amor
Eu traí a mim mesmo, hoje eu sei
Que ninguém nesse mundo
É feliz tendo amado uma vez...
Uma vez
Eu perdi o meu medo
O meu medo, o meu medo da chuva
Pois a chuva voltando
Pra terra traz coisas do ar
Aprendi o segredo, o segredo
O segredo da vida
Vendo as pedras que
Choram sozinhas no mesmo lugar
Vendo as pedras que
Choram sozinhas no mesmo lugar
Vendo as pedras que
Sonham sozinhas no mesmo lugar

domingo, 14 de abril de 2013

Estou na moda se não sou homofóbico?

Engraçado como se tem discutido tanto a homofobia nos últimos dias, assim como racismo . Não acho isso de todo ruim, pelo contrário, quanto mais falamos no assunto mais podemos nos posicionar diante dos fatos e em especial ouvir todos os lados.
O que na verdade me choca é que quando se defende uma ideia ou posição, principalmente nas redes sociais, temos sempre a tendência de culpar alguém ou mostrar que tal fato é discriminação, notaram?
Vamos começar falando do racismo, por exemplo. Outro dia vi numa novela global (“Lado a Lado”), que tratava exatamente da questão, o ator Lázaro Ramos (Zé Navalha) dizendo ao amigo: “Você não pode jogar futebol, isso é coisa de branco”, isso enquanto ele julgava o amigo por ter pintado a cara com pó branco para poder jogar (mesmo tendo este no meio do jogo limpado o rosto e competido até o fim) . A questão era:  nós somos negros, lutamos pelos nossos direitos, mas não nos metemos em coisa de branco.


Outro dia uma amiga entrou num grupo fechado de uma rede social que falava sobre o Futebol Americano e sobre os jogadores do time  que ela é fã. Foi discriminada pelas mulheres negras do grupo por ela ser muito branca, bem tipo: “Sai daqui e não roube nossos negros, você já tem os seus brancos”.  Que lástima, não?
Uma amiga negra que se estava apaixonando por um negro me disse: “Não quero gostar dele, não é porque sou negra que devo casar com negro.” Concordo, mas por que ela tem que se apaixonar pela cor e não por um homem que também estava apaixonado por ela?
Amigas japonesas passaram pelo mesmo problema. Elas não podiam se apaixonar por homens que não fossem japoneses pelo simples fato da família, ou elas mesmas, não aceitarem.
Então quer dizer que os brancos não devem julgar os negros, mas os negros podem julgar os brancos? São cotas em novelas, comerciais e faculdades para nós, negros (sim me incluo aí, apesar de nunca ter usado tal artifício para conquistar meus direitos). Sinto dizer, mas a meu ver as cotas só são mais um meio de separação, onde as pessoas são julgadas a merecer tais créditos pela cor e não por sua capacidade em estudar e se preparar para devido cargo, papel ou vaga.
Agora a bola da vez é a homofobia. Acredito que ninguém está livre de se apaixonar por uma pessoa do mesmo sexo, e por conta de um Feliciano que diz não aceitar porque “ele é evangélico”, se formou outro grupo de pessoas que estão sofrendo preconceito por defender sua fé, são os “evangelhofobia”. Basta dizer “sou evangélico” que vem a frase: “então você é homofóbico”.
Não, nem todos os evangélicos o são. Muitos respeitam as opções sexuais dos outros e só querem ensinar a seus filhos que Deus fez o homem pra mulher e a mulher para o homem.
O que tenho visto nas redes sociais é uma briga sem sentido entre sexos, raças e religiões, assim como se briga por partidos políticos e times de futebol.
O que quero é meu direito de ser respeitado e o dever de respeitar o próximo.
O que quero é olhar para o outro e ver mais um ser humano, não mais uma cor, uma religião ou sua opção sexual.
Levantar uma bandeira de igualdade dividindo é lastimável. Ninguém muda a opinião de ninguém com insultos, ofensas, violência seja ela de que tipo for.
Acordem meu povo.

Por Crisllei Dias.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Para além da curva da estrada




Sinto que só agora começo a viver. Trinta e cinco anos de vida e sinto-me como aquela adolescente que está se descobrindo: qual profissão escolher, qual caminho a seguir, qual amor viver e do qual desistir?

O que terá sido tudo que vivi até aqui?

Fui uma criança que tinha que dizer "sim, senhora!" e "sim, senhor!" para tudo que os pais diziam. Uma adolescente que tinha que dizer "sim, Senhor!" para tudo que a igreja dizia. Uma mulher que tinha que dizer "sim", para tudo que o casamento dizia.

Mas até chegar ao casamento, eu tinha sonhos: sonho de morar sozinha, de ser uma grande profissional, sonhos de viajar para muitos lugares, sonhos de viver vários amores. Finalmente eu iria ser adulta, sair da casa e da dependência dos meus pais.

Mas por um lapso, uma loucura momentânea, eu achei que casar seria o caminho mais fácil, porque assim eu não faria tudo sozinha, eu teria um parceiro para viajar, me apoiar em cada nova etapa profissional, cresceríamos juntos, aprenderíamos juntos. E os vários amores? Ah! Esses não me seriam necessários porque ele supriria toda a minha carência, seria meu amor. Seríamos um, seríamos suficientes um para o outro.
Mas toda essa ilusão se acabou e na verdade, eu não posso culpar ninguém além de mim mesma.

Por anos achei que, para que tudo desse certo entre nós, eu deveria me conformar em ser esposa e ser mãe. Abrir mão de meus sonhos para viver os sonhos da minha família.
Parei meus planos e projetos. Esqueci que sou mulher e preciso ser amada, respeitada, apoiada.
Não posso negar que vivi momentos especiais como estar grávida, ser mãe e cuidar de uma vida. Isso me fez e me faz muito feliz.
Porém eu não precisaria me esquecer, me anular, nem desistir do meu curso de inglês e de espanhol, das minhas viagens, minha liberdade de opinião e da minha liberdade financeira.  Ah! Tantos projetos que eu tinha, mas fui criada para sempre depender de alguém e quando eu desejei não depender, cai na armadilha novamente.

Hoje eu tento encontrar aquela adolescente cheia de sonhos e corajosa que ficou no passado. E ela está mais madura, conhece mais coisas, tem mais experiência, está mais forte e acredita mais nela, e isso é bom.
A única coisa que me incomoda é que sinto que perdi muito tempo. É como se eu não tivesse vivido por doze anos e agora dou a cara à tapa para o mundo.  

Preciso correr atrás do tempo perdido, reaprender, sim, reaprender a sonhar, a andar sozinha, a trabalhar, a me arrumar, a me amar, a dizer não, a me posicionar, a me manter firme, a não desistir diante das diversidades e caras feias.
 Não posso correr e atropelar tudo, porém tenho que me superar a cada dia. Pensar que para além da curva dessa estrada, há uma outra estrada e outras curvas, outras oportunidades.
Vou deixar para vocês um poema do Fernando Pessoa que fala exatamente isso. Bora gente, fé em Deus e pé na tabua!



Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterónimo de Fernando Pessoa


Por Crisllei Dias.

terça-feira, 2 de abril de 2013

A inveja é uma merda‏

"Dia 25/01/2013 o Jornal da Cultura passou uma reportagem apresentando um estudo conduzido por pesquisadores de duas universidades alemãs, afirmando que um a cada três usuários de redes sociais relataram sentir frequentemente sentimentos negativos, como frustração, irritação e solidão, ao acessar a rede. A principal causa de tais sentimentos era ver as fotos dos amigos em viagem de férias, seguida de vida social ativa. O psicólogo Helder Kamei, mestre em Psicologia Positiva pela USP, comenta os efeitos da comparação social na nossa felicidade."

Passei mais de trinta anos da minha vida sem saber o que era inveja. Talvez até tivesse presenciado algum evento ou algum comentário, ou talvez até tivesse ao meu redor alguém invejoso, mas a verdade é que nunca me dei conta que esse sentimento existisse.
Tenho mesmo que assumir minha inocência nesse sentido, mas é o que realmente aconteceu comigo. Não sei se nunca houve ou se eu nunca reparei. Creio que a segunda opção é a mais possível.
Fui feliz. Mas um dia eu descobri que esse sentimento existia. Descobri através de uma "colega" de trabalho. E foi horrível, gente. Eu me senti invadida, exposta, sem defesa. Ela promoveu divisões e intrigas no ambiente de trabalho.
Depois desse dia, nunca mais fui a mesma com relação a isso. Perceber que esse sentimento realmente existia acabou com a minha inocência e credulidade. Mais tarde, descobri esse sentimento devastador em uma pessoa da minha família, uma pessoa muito próxima de mim, alguém em quem eu confiava integralmente. Isso foi o fim para mim, foi como uma facada na minha alma.
Hoje eu sei que a inveja mata. Mata a alma de quem a sente, transformando essa pessoa num vampiro, que anda por aí buscando outras almas para sugar, já que não tem vida em si mesmo e por isso precisa da vida que há nos outros.
A inveja acaba com os sentimentos, destrói relacionamentos e deixa atrás de si um rastro de infelicidade. Pobre de quem sente isso, pois não consegue viver toda a beleza que a vida nos traz. E nós que somos os perseguidos, temos que aprender a nos desvencilhar desse tipo de gente, tentando colocar uma distância bem grande entre eles e nós e temos que aprender também a não responder às provocações e perseguições, porque senão teremos nossa vida destruída por esse tipo de gente.

Olivia Rosa

segunda-feira, 1 de abril de 2013

PARENTE É QUE FERRA A GENTE



Óhhhh, palavras de mamãe meu povo. Por anos vi a família dela e do meu pai sugando, se metendo, impondo, etc.
Mas não vou falar dos parentes deles e sim dos meus pais, dos seus pais, dos pais da minha amiga amada que registrou aqui algo sobre sua família, de todos nós que não escolhemos em que família nasceríamos, assim como  nossos pais não escolheram os filhos que sonhavam ter, não é mesmo?
Vejo pessoas queridas e outras nem tanto que sofrem com relacionamentos familiares e que não têm coragem de dar uma basta. Mães e pais que impõem sobre seus filhos seus desejos, suas vontades, suas verdades sem sequer ouvi-los; pais que jogam sobre seus filhos seus medos, suas culpas, seus erros, e acreditam que por serem seus filhos, são obrigados a carregar suas cruzes como se já não tivéssemos as nossas.
Percebo, felizmente, que a maioria das pessoas vive bem com seus pais, são suas estruturas, seus alicerces, seu apoio, a família que está do seu lado para o que der e vier.
Mas nem todos têm essa sorte, e ai passam anos de suas vidas tentando ser o filho que os pais queriam que eles fossem e se machucam porque não pode alcançar tal objetivo, se martirizam se oprimem, sofrem: “poxa é minha mãe e não consigo amá-la. É meu pai, mas não consigo admirá-lo.” Vem a culpa, o peso, a recriminação das pessoas que  dizem: “é seu sangue, te alimentou te deu a vida, você tem por obrigação aceitar, por mais que te machuquem, por mais que oprimam e que te suguem, sãos seus pais, são sua família.”
Nãooooooo, eu digo não!
Sou mãe por escolha, é dever meu cuidar dos meus filhos, alimentá-los, dar segurança e apoio até que eles possam seguir sozinhos com suas próprias pernas, mas isso não faz com que eles tenham qualquer obrigação para comigo. Laço a gente cria, amor a gente constrói, respeito recebemos quando também damos, e isso a qualquer pessoa.
Meus pais, por exemplo, são meus alicerces, sei que posso contar com eles para o que precisar e se estiver ao alcance deles, porém pela “ignorância” deles, a forma como foram criados, no interior do Brasil, dentro da religiosidade e dos “bons costumes” etc, mantenho certas particularidades fora do alcance, eles não poderiam compreender, com o tempo e com muito tato, tento apresentar a filha que eles criaram na mulher que estou me tornando.
O contrário também acontece: gente, mães e pais que sofrem com filhos agressivos, que os maltratam de graça, que não os respeitam por mais que a família queira ajudar.
Um dia fui visitar um amigo numa clínica para dependentes químicos e logo após teve uma reunião somente para familiares e amigos. Pois bem, um casal começou a relatar a crise que viveu com um filho que tinha dependência de drogas já há um tempo. Disseram: “era como se meu filho estivesse num palco e a família assistindo sua destruição, brigávamos enquanto casal, não olhávamos mais para nossos outros dois filhos e netos, não visitávamos mais a família porque nos envergonhávamos cada vez que perguntavam sobre a situação deste, vendemos coisas para pagar suas dívidas com traficantes, tentamos interná-lo várias vezes sem sucesso.  Uma hora percebemos que nós é que estávamos morrendo aos poucos e decidimos abrir mão dele, foi difícil, mas necessário, voltamos a olhar pra nós e para nossa vida, nossos outros filhos, viajamos, namoramos e ele então percebeu que quem agora estava num palco éramos nós, nos procurou para que os internássemos e recusamos, se ele o quisesse que procurasse, e ele o fez, está indo bem no tratamento, nós o visitamos sempre que podemos e que nossa vida permite.”
Refleti muito sobre o testemunho destes pais corajosos. Refleti  sobre minha amiga que também deu um basta a uma família que a destruía por dentro. Pessoas corajosas que apesar do laço de sangue que os une, decidiram viver a vida que Deus lhe deu, ser feliz, ser quem queria ser, e abriram mão da culpa que jogamos sobre a vida delas sem se quer conhecer sua história e a razão deles terem chegado ao ponto de romper com pais ou com filhos, com  a família.
Não escolhemos a família que queríamos ter, mas escolhemos com quem podemos viver, amigos, irmãos de coração, pais e filhos adotados pelo amor e consideração.
Não há vergonha nisso, sim um gesto de amor a si mesmo e de coragem.
Conselho que li um dia desses da cantora, médica, ilustradora ( e muito mais coisas) Cinthya Verri: Ministério da Saúde Emocional adverte: família — use com moderação.


Se você tem uma boa convivência com a sua, toda moderação é pouca para que você viva uma vida mais tranquila. Se você infelizmente não tem, não perca tempo esperando que as coisas mudem, mude você primeiro.
Boa sorte.
Crisllei Dias

sábado, 30 de março de 2013

Livre


Sim, eu tenho uma amiga linda, doce e forte. E ela tem descendência negra. E tem um cabelo lindo.

Mas houve um tempo em que ela não achava isso, não achava que seu cabelo era lindo. Ela o alisava, apesar das minhas várias tentativas de fazê-la ver que seu cabelo era lindo. Hoje ela está na transição. Está se assumindo como uma pessoa que tem o cabelo crespo e que esse cabelo é tão ou mais bonito que o alisado.



E isso tem sido muito interessante para mim. Assim como ela, eu não me aceitava porque eu não me via como eu realmente sou. Eu seguia aquilo que os outros falavam. Assim como ela, eu tentava me conformar ao modelo que as pessoas me impunham.

Não, eu não tenho cabelo crespo, mas tinha muito medo de não ser o que esperavam de mim. Eu tinha que atender a todas as expectativas da minha família e eu nunca conseguia alcançar o nível que eu mesma me colocava.
Eu não me adaptava aquele modelo. Não me adaptava e me sentia muito mal. Por dentro eu via as coisas diferentes, eu achava que a gente poderia ser diferente, fazer as coisas diferentes. Mas eu era sufocada e não conseguia me expressar.

 Eu achava que a família deveria vir sempre em primeiro lugar, mas não era assim que as coisas funcionavam. Então, eu era revoltada e a maneira como eu expressava minha revolta era ser dura para comigo mesma e para com os outros.
Foi um período muito difícil para mim. Eu vivi um Vietnã, com todos os destroços e coisas feias que a guerra traz.
Minha cabeça não conseguia enxergar as coisas de outra maneira. 

Um dia eu fui forçada a me mudar. Mudar mesmo: de casa, de cidade, de trabalho, de tudo. 
E estando longe, minha cabeça começou a vislumbrar uma outra maneira de ver o mundo. Conhecendo outra cultura, outro modo de vida, eu vi que o mundo é muito mais do que aquilo que nos cerca.
As possibilidades são muito mais amplas e por vezes, muito melhores.

Aprender é difícil, muito difícil, mas o que torna tudo mais difícil somos nós mesmos, com a dureza da nossa alma, nossa teimosia em querer fazer as coisas sempre do mesmo modo, em querer impor nossa forma de pensar ou em aceitar aquilo que nos faz mal.

Como minha doce amiga, eu estou em transição. Na vida, na alma, no meu querer. Estou pacificando meu coração, aceitando que eu posso ser eu mesma, com minhas ideias, sentimentos, gostos. Aceitando que posso ter minha própria opinião e não preciso nem aceitar a dos outros, nem tentar impor a minha.

Se alguma coisa não me agrada, eu posso simplesmente me afastar dela, seja o que for. Posso simplesmente colocar um milhão de kms de distancia e ficar em paz. Eu não preciso forçar a minha natureza com nenhum alisante, produto químico ou sentimentos contraditórios...
Se meus sentimentos, meus gostos, minhas opiniões não são aquilo que as pessoas, a sociedade espera de mim, amém. Eu vou ser feliz de outra maneira.

Eu não preciso me conformar a nenhum modelo estabelecido. Eu não preciso ter o cabelo liso, a pele de pêssego, a bunda firme, os seios de silicone, não preciso passar 500hs na academia, não preciso frequentar os lugares da moda, as baladas da moda, não preciso usar a roupa de grife. Eu não preciso ler o que todo mundo está lendo. Eu não preciso sentir o que todo mundo está sentindo.
Eu só preciso ser eu mesma. Eu tenho o direito de pensar o que eu quiser. Eu tenho de direito de ler o que eu quiser. Eu tenho o direito de sentir o que eu quiser. Eu tenho o direito de ter o meu cabelo do jeito que eu quiser.
É só isso.

E preciso aprender a aceitar as pessoas como elas são
Se elas não me amam, se elas me ferem (sim elas podem fazer e isso e frequentemente fazem) eu posso simplesmente me afastar delas, sejam elas da família ou não. 

Que sejam felizes, não desejo mal a ninguém. 
Só não dá pra andar junto, só isso. Nossos pensamentos não combinam, nossa vida não combina, nosso sentimento não combina e tudo bem. Cada um seja feliz no seu canto.