A gente nunca acredita que
acontecerá com a gente até que acontece. A gente nunca imagina que irá cair no
golpe, depois de assistir no jornal tantas pessoas que caíram, mas cai.
Uma e meia da madrugada de
quarta-feira, do dia 26 de junho de 2013, um dia tumultuado. Eu estava cansada
e decepcionada com algumas coisas do trabalho. O telefone toca, uma chamada a
cobrar, pensei em não atender, mas ao 3º toque atendi. Pensei: vou ouvir a voz
e se não reconhecer, desligo imediatamente, mas “reconheci”; a voz feminina do
outro lado parecia ser a da minha irmã que chorava, dizendo que havia
acontecido algo horrível e que acabara de ser assaltada. Com o aperto no meu
peito e involuntariamente, chamei por seu nome e ela confirmou. Perguntei onde
estava e ela disse que no carro e chorando muito dizia que o assaltante queria
falar comigo.
Quase que meu coração saiu pela
boca ao ouvir ele me dizer que não queria machucá-la, mas que se eu não colaborasse,
ele a mataria.
Foram pelo menos dez minutos de
total desespero, entre ameaças, cobranças de dinheiro e palavras de baixo
calão, as quais ele usava para me xingar. Desesperada sem saber se era um trote
como daqueles que vemos na TV ou realidade, quais também assistimos pela TV,
fiquei dividida, acordei meu marido e pedi, sem que o bandido percebesse, para
que ele ligasse para minha irmã, atordoado também pela hora e pelo meu
desespero, não conseguia contato com ela.
O medo e o terror me dominavam a
cada tentativa de contato frustrado, e só depois de muito insistir com o homem
do outro lado da linha, ele me deixou falar com a minha suposta irmã, respirei
fundo e tentei prestar atenção a sua voz.
Não, quase certo, não era ela.
Ao falar novamente com o criminoso, eu disse a ele: não, esta não é minha irmã.
Ele se revoltou e ameaçou matar toda minha família. Paralisei, não
falava, só o ouvia. Ele disse: já que não responde, vou estourar a cabeça dela.
E então desligou o telefone.
Consegui com dificuldade ligar
para minha irmã que demorou a atender, porque graças a Deus estava dormindo. E
ao ouvi-la cai em soluços, em choque, com um sentimento de alivio e medo.
Refém, parecia que era eu a ter
a arma apontada na minha cabeça. Sentimento de medo, de raiva, de impunidade,
de fraqueza, era tantos os pensamentos. Enquanto o ouvia, um filme de
lembranças da minha irmã passava pela minha cabeça.
Depois de tudo terminado, foi
difícil dormir. Eu o ouvia. Queria poder ir até ele e matá-lo da mesma maneira
que ele ameaçou matar minha irmã, cortando devagar cada um de seus
membros.
Fiz um boletim de ocorrência
pela internet que foi negado. Conversei com um policial que me disse que ele
provavelmente ligou do presídio e que a voz feminina deveria ser de um
travesti.
Então é um trote e para trotes
não se pode fazer nada. Como um presidiário pode continuar cometendo crimes e a
policia saber disso e nada fazer?
Quando vejo ONGs que defendem
criminosos, policiais punidos por matar estes, vejo valores trocados. Estamos vulneráveis,
mesmo dentro da nossa casa com portas fechadas, nas ruas não se pode andar, aos
bancos não se pode ir, nos sentimos cercados, violados, ameaçados. Quando isso
terá fim, se terá? Quando veremos na TV a impunidade ser coisa do passado?
Nunca pensei em pena de morte, mas queria para esses que me ligaram na
madrugada. Agora quero para todos, todos que ameaçam, que roubam, que matam,
que estupram. Não há crime menor ou maior, há criminosos capazes de só com sua
voz matar uma pessoa do coração. Se o sistema não é capaz de mantê-los longe de
nossas vidas, mesmo estando presos, que garantia temos nós? É fácil
quando se diz, desligue e não atenda, pensei que fosse fácil, pensei que seria
capaz de dominar minha emoção, mas não foi, foi triste, tenebroso, assustador.
Deixo meu relato de desabafo, de
alerta, de indignação.
Sou cidadã que exige do Governo,
do Sistema, providências, segurança e punição.
Crisllei Dias.

