sexta-feira, 28 de junho de 2013

O medo do outro lado da linha

A gente nunca acredita que acontecerá com a gente até que acontece. A gente nunca imagina que irá cair no golpe, depois de assistir no jornal tantas pessoas que caíram, mas cai.
Uma e meia da madrugada de quarta-feira, do dia 26 de junho de 2013, um dia tumultuado. Eu estava cansada e decepcionada com algumas coisas do trabalho. O telefone toca, uma chamada a cobrar, pensei em não atender, mas ao 3º toque atendi. Pensei: vou ouvir a voz e se não reconhecer, desligo imediatamente, mas “reconheci”; a voz feminina do outro lado parecia ser a da minha irmã que chorava, dizendo que havia acontecido algo horrível e que acabara de ser assaltada. Com o aperto no meu peito e involuntariamente, chamei por seu nome e ela confirmou. Perguntei onde estava e ela disse que no carro e chorando muito dizia que o assaltante queria falar comigo.
Quase que meu coração saiu pela boca ao ouvir ele me dizer que não queria machucá-la, mas que se eu não colaborasse, ele a mataria.
Foram pelo menos dez minutos de total desespero, entre ameaças, cobranças de dinheiro e palavras de baixo calão, as quais ele usava para me xingar. Desesperada sem saber se era um trote como daqueles que vemos na TV ou realidade, quais também assistimos pela TV, fiquei dividida, acordei meu marido e pedi, sem que o bandido percebesse, para que ele ligasse para minha irmã, atordoado também pela hora e pelo meu desespero, não conseguia contato com ela.
O medo e o terror me dominavam a cada tentativa de contato frustrado, e só depois de muito insistir com o homem do outro lado da linha, ele me deixou falar com a minha suposta irmã, respirei fundo e tentei prestar atenção a sua voz.
Não, quase certo, não era ela. Ao falar novamente com o criminoso, eu disse a ele: não, esta não é minha irmã. Ele se  revoltou e ameaçou  matar toda minha família. Paralisei, não falava, só o ouvia. Ele disse: já que não responde, vou estourar a cabeça dela. E então desligou o telefone.
Consegui com dificuldade ligar para minha irmã que demorou a atender, porque graças a Deus estava dormindo. E ao ouvi-la cai em soluços, em choque, com um  sentimento de alivio e medo.
Refém, parecia que era eu a ter a arma apontada na minha cabeça. Sentimento de medo, de raiva, de impunidade, de fraqueza, era tantos os pensamentos. Enquanto o ouvia, um filme de lembranças da minha irmã passava pela minha cabeça.
Depois de tudo terminado, foi difícil dormir. Eu o ouvia. Queria poder ir até ele e matá-lo da mesma maneira que ele ameaçou matar minha irmã, cortando devagar  cada um de seus membros.


Fiz um boletim de ocorrência pela internet que foi negado. Conversei com um policial que me disse que ele provavelmente ligou do presídio e que a voz feminina deveria ser de um travesti.
Então é um trote e para trotes não se pode fazer nada. Como um presidiário pode continuar cometendo crimes e a policia saber disso e  nada fazer?
Quando vejo ONGs que defendem criminosos, policiais punidos por matar estes, vejo valores trocados. Estamos vulneráveis, mesmo dentro da nossa casa com portas fechadas, nas ruas não se pode andar, aos bancos não se pode ir, nos sentimos cercados, violados, ameaçados. Quando isso terá fim, se terá? Quando veremos na TV a impunidade ser coisa do passado? Nunca pensei em pena de morte, mas queria para esses que me ligaram na madrugada. Agora quero para todos, todos que ameaçam, que roubam, que matam, que estupram. Não há crime menor ou maior, há criminosos capazes de só com sua voz matar uma pessoa do coração. Se o sistema não é capaz de mantê-los longe de nossas vidas, mesmo estando presos, que garantia temos nós?  É fácil quando se diz, desligue e não atenda, pensei que fosse fácil, pensei que seria capaz de dominar minha emoção, mas não foi, foi triste, tenebroso, assustador.
Deixo meu relato de desabafo, de alerta, de indignação.
Sou cidadã que exige do Governo, do Sistema, providências, segurança e punição.
Crisllei Dias.




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