Óhhhh, palavras de mamãe meu povo. Por anos vi a
família dela e do meu pai sugando, se metendo, impondo, etc.
Mas não vou falar dos parentes deles e sim dos meus
pais, dos seus pais, dos pais da minha amiga amada que registrou aqui algo
sobre sua família, de todos nós que não escolhemos em que família nasceríamos,
assim como nossos pais não escolheram os filhos que sonhavam ter, não é
mesmo?
Vejo pessoas queridas e outras nem tanto que sofrem
com relacionamentos familiares e que não têm coragem de dar uma basta. Mães e
pais que impõem sobre seus filhos seus desejos, suas vontades, suas verdades
sem sequer ouvi-los; pais que jogam sobre seus filhos seus medos, suas culpas,
seus erros, e acreditam que por serem seus filhos, são obrigados a carregar
suas cruzes como se já não tivéssemos as nossas.
Percebo, felizmente, que a maioria das pessoas vive
bem com seus pais, são suas estruturas, seus alicerces, seu apoio, a família
que está do seu lado para o que der e vier.
Mas nem todos têm essa sorte, e ai passam anos de
suas vidas tentando ser o filho que os pais queriam que eles fossem e se
machucam porque não pode alcançar tal objetivo, se martirizam se oprimem,
sofrem: “poxa é minha mãe e não consigo amá-la. É meu pai, mas não consigo
admirá-lo.” Vem a culpa, o peso, a recriminação das pessoas que dizem: “é
seu sangue, te alimentou te deu a vida, você tem por obrigação aceitar, por
mais que te machuquem, por mais que oprimam e que te suguem, sãos seus pais,
são sua família.”
Nãooooooo, eu digo não!
Sou mãe por escolha, é dever meu cuidar dos meus
filhos, alimentá-los, dar segurança e apoio até que eles possam seguir sozinhos
com suas próprias pernas, mas isso não faz com que eles tenham qualquer
obrigação para comigo. Laço a gente cria, amor a gente constrói, respeito
recebemos quando também damos, e isso a qualquer pessoa.
Meus pais, por exemplo, são meus alicerces, sei que
posso contar com eles para o que precisar e se estiver ao alcance deles, porém
pela “ignorância” deles, a forma como foram criados, no interior do Brasil,
dentro da religiosidade e dos “bons costumes” etc, mantenho certas
particularidades fora do alcance, eles não poderiam compreender, com o tempo e
com muito tato, tento apresentar a filha que eles criaram na mulher que estou
me tornando.
O contrário também acontece: gente, mães e pais que
sofrem com filhos agressivos, que os maltratam de graça, que não os respeitam
por mais que a família queira ajudar.
Um dia fui visitar um amigo numa clínica para
dependentes químicos e logo após teve uma reunião somente para familiares e
amigos. Pois bem, um casal começou a relatar a crise que viveu com um filho que
tinha dependência de drogas já há um tempo. Disseram: “era como se meu filho
estivesse num palco e a família assistindo sua destruição, brigávamos enquanto
casal, não olhávamos mais para nossos outros dois filhos e netos, não
visitávamos mais a família porque nos envergonhávamos cada vez que perguntavam
sobre a situação deste, vendemos coisas para pagar suas dívidas com
traficantes, tentamos interná-lo várias vezes sem sucesso. Uma hora
percebemos que nós é que estávamos morrendo aos poucos e decidimos abrir mão
dele, foi difícil, mas necessário, voltamos a olhar pra nós e para nossa vida,
nossos outros filhos, viajamos, namoramos e ele então percebeu que quem agora
estava num palco éramos nós, nos procurou para que os internássemos e
recusamos, se ele o quisesse que procurasse, e ele o fez, está indo bem no
tratamento, nós o visitamos sempre que podemos e que nossa vida permite.”
Refleti muito sobre o testemunho destes pais
corajosos. Refleti sobre minha amiga que também deu um basta a uma família
que a destruía por dentro. Pessoas corajosas que apesar do laço de sangue que
os une, decidiram viver a vida que Deus lhe deu, ser feliz, ser quem
queria ser, e abriram mão da culpa que jogamos sobre a vida delas sem se quer
conhecer sua história e a razão deles terem chegado ao ponto de romper com pais
ou com filhos, com a família.
Não escolhemos a família que queríamos ter, mas
escolhemos com quem podemos viver, amigos, irmãos de coração, pais e filhos
adotados pelo amor e consideração.
Não há vergonha nisso, sim um gesto de amor a si
mesmo e de coragem.
Conselho que li um dia desses da cantora, médica,
ilustradora ( e muito mais coisas) Cinthya Verri: Ministério da Saúde Emocional
adverte: família — use com moderação.
Se você tem uma boa convivência com a sua, toda
moderação é pouca para que você viva uma vida mais tranquila. Se você
infelizmente não tem, não perca tempo esperando que as coisas mudem, mude você
primeiro.
Boa sorte.
Crisllei Dias


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