Lembro-me como se fosse hoje. Final de uma
manhã ensolarada, voltando do pilates, ouvi essa música pela primeira vez. Já
fazia um certo tempo que eu adivinhava o fim do nosso relacionamento. Ele
estava evasivo, cheio de desculpas, escorria da minha vida como a água escorre
das mãos.
Eu tentava não ver. Tentava manter aquilo que
já não existia mais.
Tudo havia começado quando eu assumi um amor
diferente do mundo "normalzinho" em que eu vivia. Foi tão bom, tão
maravilhoso, tão intenso, tão profundo. Ele era, na verdade, muito
diferente de mim. Não tinha mesmo como dar certo, nossos mundos eram tão
opostos. Mas eu insisti, estava totalmente disposta a aceitar e enfrentar tudo
( e não era pouco). Olhando hoje vejo que se fosse recíproco seria algo digno
de um filme, algo como a conquista da América recém-descoberta pelos europeus.
Algo como desbravar o desconhecido. Olhando para trás, vejo que estive sozinha,
lutando por algo que só existiu no meu coração.
Mas afinal, aceitei o fim. Terminou. Primeiro
por fora (por ele), depois por dentro (em mim), na seguinte ordem, de fora para
dentro: derme, epiderme e hipoderme. Finalmente chegou ao coração. E mudou toda
minha vida.
Mudou tanto que ainda estou recolhendo os cacos
e fazendo uma nova vida para mim. Cada dia descubro um caco novo perdido por aí
(cacos miúdos demoram mais a serem achados). E já que faria uma nova vida,
então também tinha que escolher outro lugar para viver, outro trabalho e novos amigos.
Aproveitei e desci até o porão e fiz a faxina
completa. Joguei fora tudo que não prestava. Joguei fora todos os
relacionamentos que me machucavam e que não me serviam mais. Joguei fora todos
os sentimentos que me doíam a alma, me mantinham presa na infelicidade.
Ainda continuo na faxina. Agora subi até o sótão
e joguei água para tirar toda a poeira acumulada em todos esses anos de
obrigações, deveres, prisões na alma.
Comecei outra faculdade. Abandonei falsos
amigos. Estou me dando o direito de não aceitar provocações, de escolher quem
pode ficar ao meu lado. Estou me dando o direito de olhar a vida com outros olhos,
com muito mais liberdade. Não vou me deixar mais escravizar por nada que não me
faça muito bem.
Descobri tanta gente boa nesse caminho (e eu
que cheguei um dia a pensar que a vida era só amargura!).
Se eu o encontrasse hoje, eu diria a ele: muito
obrigada, você foi a melhor experiência que eu já tive. Foi curto e intenso, mas
valeu muito a pena. Machucou, doeu, mas me ensinou coisas valiosas demais.
Ainda caminho com dificuldade, mas não trocaria
minha vida de agora, minha lucidez atual por nada que já vivi antes.
Por Olivia Rosa.

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